segunda-feira, outubro 05, 2026

Saúde

Treino muscular expiratório (TME) e deglutição na doença de Parkinson: o que mostra a evidência científica?

A disfagia, ou dificuldade para engolir, é uma alteração frequente na doença de Parkinson e pode aumentar o risco de penetração e aspiração de alimentos e líquidos para as vias aéreas.

Diariamente nos fazemos a pergunta: o treinamento com dispositivos expiratórios pode ajudar nessa condição?

Um estudo publicado em 2010 na revista Neurology, Christine M. Sapienza, PhD, pesquisadora reconhecida por seus trabalhos na área de treinamento da musculatura respiratória e colaboradores, investigou se o treinamento da força muscular expiratória poderia melhorar a segurança da deglutição em pessoas com doença de Parkinson.

Sobre o estudo:

  • O trabalho foi desenvolvido como um ensaio clínico randomizado, cego e controlado por intervenção sham (grupo controle);
  • Inicialmente 72 pessoas com doença de Parkinson foram avaliadas e recrutadas, porém, 60 participantes concluíram o protocolo, divididos da seguinte forma: 30 pessoas no grupo que realizou TME e 30 no grupo controle.

Os participantes realizaram o treinamento durante:

  • 4 semanas;
  • 5 dias por semana;
  • 5 séries de 5 repetições por sessão;
  • utilizando um dispositivo de treinamento da musculatura expiratória.

No grupo TME, o dispositivo era ajustado semanalmente para 75% da pressão expiratória máxima (Pemax) de cada participante. O grupo controle utilizou um dispositivo visualmente semelhante, mas sem fornecer uma carga fisiológica significativa aos músculos-alvo.

Como a deglutição foi avaliada?

Um dos pontos importantes do estudo foi a utilização de uma avaliação objetiva da deglutição por meio de videofluoroscopia.

Os pesquisadores analisaram, entre outros aspectos:

  • segurança da deglutição;
  • presença de penetração ou aspiração;
  • movimento do osso hioide;
  • duração do movimento hiolaríngeo;
  • qualidade de vida relacionada à deglutição.

A segurança da deglutição foi avaliada utilizando a Penetration-Aspiration Scale (PAS), uma escala de 8 pontos. Nela, o escore 1 representa uma deglutição sem penetração ou aspiração, enquanto o escore 8 corresponde à aspiração silenciosa.

Qual foi o resultado?

Os resultados mostraram uma diferença entre os grupos.

  • Após quatro semanas de treinamento, o grupo que realizou TME apresentou melhora significativa na segurança da deglutição, enquanto essa melhora não foi observada no grupo controle.
  • A média do escore da Penetration-Aspiration Scale no grupo EMST passou de 2,64 para 2,07, com diferença estatisticamente significativa (p = 0,021). No grupo controle, os valores passaram de 2,59 para 3,30, sem diferença estatisticamente significativa.
  • 33% dos participantes do grupo TME apresentaram melhora no escore de penetração-aspiração, em comparação com 14% no grupo controle.

O TME pode influenciar o movimento hiolaríngeo?

Essa foi uma das questões mais interessantes do estudo.

Os pesquisadores observaram alterações no deslocamento do osso hioide durante diferentes momentos da deglutição no grupo TME.

Os deslocamentos aumentaram em diversos eventos da deglutição, especialmente nos relacionados à abertura e ao fechamento do esfíncter esofágico superior.

Segundo os autores, um maior deslocamento do hioide nesses momentos pode favorecer a abertura do esfíncter esofágico superior, facilitando a passagem do bolo alimentar e contribuindo para uma melhor limpeza da região laringofaríngea. A redução de resíduos nessa região pode, por sua vez, diminuir o risco de aspiração.

E quanto à qualidade de vida?

Tanto o grupo TME quanto o grupo controle apresentaram melhora na qualidade de vida relacionada à deglutição.

Os autores utilizaram o SWAL-QOL (Swallowing Quality of Life Questionnaire) para avaliar esse aspecto. A melhora ocorreu independentemente do grupo de tratamento.

Isso é relevante porque mostra que a percepção do paciente sobre sua função de deglutição também deve ser considerada, além das medidas objetivas obtidas na videofluoroscopia.

Qual é a importância desses resultados?

O estudo deda Dra Sapienza e colaboradores foi importante porque avaliou o TME não apenas como uma forma de aumentar a força expiratória, mas também como uma possível estratégia para reabilitação da deglutição em pessoas com doença de Parkinson.

Os resultados sugerem que o treinamento pode estar relacionado a:

→ melhora da segurança da deglutição;
→ redução dos escores de penetração-aspiração;
→ alterações no deslocamento hiolaríngeo;
→ possíveis mudanças nos mecanismos fisiológicos envolvidos na deglutição.

Os autores concluíram que o TME pode representar um tratamento restaurador para a disfagia na doença de Parkinson, possivelmente relacionado à melhora do movimento do complexo hiolaríngeo. O estudo foi classificado pelos autores como fornecendo evidência Classe I de melhora da segurança da deglutição, definida pelo escore da Penetration-Aspiration Scale.

Quais foram as limitações do estudo?

A maioria dos participantes apresentava comprometimento da deglutição entre leve e moderado, portanto os resultados não podem ser automaticamente generalizados para pessoas com disfagia mais grave.

Os autores também apontaram a necessidade de estudos futuros para verificar a duração dos efeitos do treinamento, a necessidade de manutenção ou retreinamento e, principalmente, se os efeitos observados no estudo poderiam se traduzir em uma redução efetiva da ocorrência de pneumonia aspirativa em pessoas com Parkinson.

Quer conhecer o estudo? https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC2995389/?utm_source=chatgpt.com

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