Para além da função respiratória, o diafragma desempenha papéis fundamentais em diversas funções fisiológicas, como o controle gástrico, urinário e postural.
Do ponto de vista anatômico e funcional, o diafragma pode ser dividido em duas porções: costal e crural, que atuam de forma sinérgica durante a respiração. No entanto, em determinadas situações, pode haver maior predominância de uma sobre a outra, como ocorre em eventos como o vômito e a deglutição.
Um aspecto relevante é que relaxamentos transitórios da musculatura crural estão associados ao início de episódios de refluxo gastroesofágico. Além disso, o nervo frênico — responsável pela inervação do diafragma — pode apresentar padrões de ativação distintos, reforçando a complexidade do controle neural dessa musculatura.
Relação com o assoalho pélvico
Assim como o diafragma, os músculos do assoalho pélvico são ativados de forma antecipatória antes da execução de movimentos, atuando em sincronia dentro de um sistema integrado de controle postural e pressórico.
Quando essa sincronia é comprometida, podem surgir alterações funcionais importantes. Evidências científicas demonstram que falhas nesse sistema levam a um aumento inadequado da pressão intra-abdominal, sobrecarregando o assoalho pélvico.
Como consequência, podem surgir condições como:
- incontinência urinária
- disfunções respiratórias
- dor lombar
Fraqueza muscular respiratória e disfunções urinárias
A literatura sugere que a fraqueza dos músculos respiratórios pode estar diretamente associada à disfunção do assoalho pélvico.
A disfunção do trato urinário inferior é uma condição multifatorial, caracterizada por sintomas como:
- dificuldade miccional
- urgência urinária
- incontinência
Tradicionalmente tratada como uma condição urológica isolada, atualmente sabe-se que há forte relação com:
- função respiratória
- controle postural
- musculatura do core
Evidências científicas
Estudos recentes reforçam essa integração entre sistemas.
Uma pesquisa intitulada “Evaluation of pelvic floor muscle activity, pulmonary function, respiratory muscle strength, core muscle endurance, and functional capacity in children with lower urinary tract dysfunction” demonstrou que crianças com disfunção urinária apresentam:
- redução significativa da pressão inspiratória e expiratória máxima
- fraqueza muscular respiratória relevante
- comprometimento importante da musculatura do core
Outro estudo, “Investigating the Effectiveness of Pelvic Floor Muscle Training, Including Sensor-Based Diaphragm Exercises in Women With Stress Urinary Incontinence”, evidenciou que a associação entre:
- treinamento do assoalho pélvico
- exercícios diafragmáticos
resulta em melhora mais significativa dos sintomas urinários e da função muscular quando comparado ao treino isolado.
Além disso, estudo recente Effects of Home-Based, Telerehabilitation-Assisted High-Intensity Inspiratory Muscle Training on Pelvic Floor Muscle Function and Urinary Symptoms in Women with Stress Urinary Incontinence: A Pilot Randomized Controlled Trial” de 2026 investigou os efeitos do treinamento muscular inspiratório (TMR) em mulheres com incontinência urinária de esforço.
O protocolo incluiu:
- 2 sessões diárias
- 7 dias por semana
- duração de 8 semanas
- intensidade de 60% da PImáx
Os resultados demonstraram:
- aumento significativo da força inspiratória
- melhora da função do assoalho pélvico
- contração máxima
- contração média
- resistência muscular
Esses achados indicam que o treinamento muscular respiratório não apenas melhora a função ventilatória, mas também pode impactar positivamente o desempenho do assoalho pélvico.
Implicações clínicas
Essas evidências reforçam dois pontos fundamentais na prática clínica:
- O fisioterapeuta respiratório pode contribuir no tratamento de pacientes com disfunções urinárias, uma vez que já utiliza estratégias como o treinamento muscular respiratório.
- O fisioterapeuta pélvico pode potencializar os resultados terapêuticos ao incluir o treinamento respiratório em seus protocolos.
Conclusão
O diafragma deve ser compreendido não apenas como um músculo respiratório, mas como parte de um sistema integrado que envolve:
- respiração
- controle postural
- função do assoalho pélvico
Dessa forma, abordagens terapêuticas integradas tendem a ser mais eficazes do que intervenções isoladas.

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