segunda-feira, março 16, 2026

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Será que a telereabilitação pode ser uma aliada dos pacientes?

A pandemia da COVID-19 teve um impacto profundo na saúde global, afetando não apenas a saúde física, mas também a saúde mental e o bem-estar das pessoas. No aspecto físico, a doença comprometeu diretamente a vida de milhões de indivíduos, variando de casos leves a quadros graves e críticos, frequentemente associados a complicações como falência respiratória, trombose e disfunção de múltiplos órgãos.

Diversos estudos já demonstraram que muitos indivíduos podem desenvolver condições pós-COVID, conhecidas como COVID longa, caracterizadas por sintomas persistentes que afetam diferentes sistemas do organismo, incluindo pulmões, coração e cérebro. Além disso, a pandemia também esteve associada ao aumento da incidência e ao agravamento de doenças crônicas, como hipertensão, diabetes e obesidade.

Até 90% dos pacientes hospitalizados apresentam COVID longa, e cerca de 33% relatam limitações nas atividades diárias. Pacientes que necessitaram de oxigenoterapia de alto fluxo ou ventilação mecânica prolongada geralmente apresentam os quadros mais graves e, frequentemente, necessitam de reabilitação pulmonar.

As restrições de mobilidade durante a pandemia promoveram mudanças na assistência em saúde, incluindo o uso da telereabilitação domiciliar. Nesse contexto, um estudo conduzido por pesquisadores da USP, em parceria com a Universidade Adventista, avaliou os efeitos do Treinamento dos Músculos Inspiratórios (TMI), realizado por meio de telereabilitação supervisionada, na dispneia de sobreviventes de COVID-19 grave com COVID longa.

Sobre o estudo:

  • Desenho: Estudo prospectivo, randomizado e controlado com 53 indivíduos.
  • Recrutamento: Os participantes foram selecionados entre junho de 2020 e julho de 2022, seguindo os critérios: admissão em UTI, suporte ventilatório por mais de 48 horas ou oxigenoterapia de alto fluxo, diagnóstico confirmado de COVID-19 (PCR) e presença de dispneia após 30 dias da alta hospitalar.
  • Grupos: Os pacientes foram alocados em dois grupos: Grupo TMI e Grupo Controle.
  • Avaliações: Foram analisados o índice de dispneia (Transition Dyspnea Index – TDI), função pulmonar, pressão inspiratória máxima sustentada (PIMAX), teste de resistência dos músculos inspiratórios e capacidade funcional (teste de sentar-levantar de 1 minuto).

Sobre o treinamento:

  • Duração: Realizado durante 12 semanas, 5 vezes por semana.
  • Supervisão: Utilizou-se a plataforma Discord para supervisão remota em tempo real.
  • Equipamento: Os participantes treinaram em casa com o dispositivo de carga linear POWERbreathe Medic Plus.
  • Protocolo: 6 séries de 1 minuto de inspirações, com intervalos de 1 minuto. Carga inicial de 40% da PImáx, progredindo até 70%, com ajustes a cada 2 semanas conforme a tolerância.
  • Sessão Supervisionada: O fisioterapeuta verificava a postura, ajustava a carga e monitorava os sintomas. Os pacientes registravam o número de respirações e a percepção de dispneia pela escala de Borg.
  • Grupo Controle: Recebeu cuidados habituais e orientações educacionais sobre atividade física (evitar inatividade, aumento gradual de atividades leves), sem um programa formal de reabilitação supervisionada.

Desfechos avaliados:

  • Dispneia: Avaliada pelo Baseline Dyspnea Index / Transition Dyspnea Index (BDI/TDI), cobrindo comprometimento funcional, magnitude da tarefa e magnitude do esforço.
  • Função Pulmonar: Espirometria (diretrizes ERS/ATS), analisando CVF, VEF1 e a relação VEF1/CVF.
  • Pressão Inspiratória Máxima Sustentada: Avaliada com dispositivo POWERbreathe KH2 (software Breathe-Link), medindo pressão, potência, fluxo, volume e área sob a curva.
  • Capacidade Funcional: Teste de sentar-levantar de 1 minuto, registrando repetições, frequência cardíaca, pressão arterial, saturação de oxigênio e dispneia.

Conclusão

O estudo conclui que um programa supervisionado de treinamento dos músculos inspiratórios por telereabilitação durante 12 semanas:

  1. Melhora significativamente a força e a resistência dos músculos respiratórios;
  2. Reduz a dispneia em pacientes com COVID longa após doença grave;
  3. É uma estratégia segura, viável e de baixo custo.

Esses resultados apoiam o uso do TMI como estratégia de reabilitação remota para pacientes com COVID longa e outras patologias pulmonares.

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