A insuficiência cardíaca é uma das principais causas de hospitalizações e mortalidade no Brasil e no mundo. Ela compromete a qualidade de vida, limita a capacidade funcional e gera altos custos para o sistema de saúde. Nesse cenário, a reabilitação cardiovascular baseada em exercícios tem se consolidado como uma das estratégias mais eficazes para melhorar a saúde e o bem-estar desses pacientes.
Recentemente, a Associação Brasileira de Fisioterapia Cardiorrespiratória, Cardiovascular e em Terapia Intensiva (ASSOBRAFIR) publicou uma revisão sistemática e diretrizes clínicas sobre intervenções baseadas em exercício em programas ambulatoriais de reabilitação para pacientes com insuficiência cardíaca.
O que foi avaliado?
A revisão reuniu evidências de ensaios clínicos randomizados publicados nos últimos 15 anos e analisou diferentes modalidades de treino aplicadas por fisioterapeutas em ambientes de reabilitação cardíaca. Foram consideradas as três formas de insuficiência cardíaca (fração de ejeção preservada, reduzida e levemente reduzida) e quatro tipos de intervenção:
- Treinamento aeróbico (HIIT e contínuo moderado)
- Treinamento resistido
- Treinamento muscular inspiratório (TMI)
- Estimulação elétrica neuromuscular (EENM/NMES)
Principais resultados da revisão
- Aeróbico: tanto o treino intervalado de alta intensidade (HIIT) quanto o treino contínuo moderado (MICT) se mostraram eficazes para melhorar a capacidade cardiorrespiratória. Não houve diferença significativa entre os dois, mas ambos aumentam o consumo máximo de oxigênio e a qualidade de vida em pacientes estáveis.
- Resistido: o treino de força em intensidade moderada foi mais efetivo do que em baixa intensidade, principalmente em pacientes com fração de ejeção reduzida, favorecendo ganho de força e maior distância percorrida no teste de caminhada de 6 minutos.
- Inspiratório (TMI): o treino muscular inspiratório de alta intensidade superou o de baixa intensidade, aumentando força e resistência dos músculos respiratórios – fatores diretamente relacionados à melhora de sintomas como falta de ar.
- EENM (NMES): a estimulação elétrica neuromuscular foi superior ao placebo ou atividades usuais, trazendo ganhos de capacidade funcional e qualidade de vida. Porém, quando associada ao treino aeróbico, não mostrou resultados adicionais relevantes.
O que isso significa na prática?
A mensagem central da revisão é clara: o exercício é seguro, acessível e deve ser parte essencial da reabilitação cardíaca. A escolha da modalidade deve ser personalizada, levando em conta preferências do paciente, condições clínicas e recursos disponíveis.
Além disso, a revisão reforça o papel do fisioterapeuta como protagonista na prescrição e supervisão do treino, garantindo segurança, progressão adequada e melhores resultados.
Conclusão
Essa revisão sistemática e diretriz da ASSOBRAFIR representa um marco importante para a prática clínica no Brasil. Ela fornece recomendações baseadas em evidências que podem orientar fisioterapeutas e equipes multidisciplinares na condução de programas de reabilitação cardiovascular, contribuindo para reduzir internações, melhorar a qualidade de vida e aumentar a sobrevida de pessoas com insuficiência cardíaca.
Em resumo: não existe um “único melhor treino”, mas sim diferentes ferramentas que, aplicadas com ciência e cuidado, podem transformar a vida de quem convive com a insuficiência cardíaca.

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